Sempre Alerta!

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"Não basta ser brasileiro, tem que ser Escoteiro!"
"O Escotismo não é uma ciência para ser estudada solenemente, nem tampouco é uma coleção de doutrinas e regras. Também não é um código militar, destinado a imprimir disciplina nos jovens e a reprimir suas individualidades. Não, o Escotismo é um alegre jogo no meio da natureza, onde adolescentes e meninos desfrutam suas aventuras juntos como irmãos, adquirindo conhecimentos, habilidades, saúde e felicidade." B.P.

A atualidade de uma pedagogia de 100 anos

por Hamilton Werneck*


Um olhar para a humanidade e para nossa mãe terra, apelando para discursos de caciques apaches ou declarações nas reuniões do G8 ou G10, observando as ações de muitas ONGs que lutam em defesa do meio ambiente, ou as manifestações arrojadas e criativas de um Greenpeace - todos desejam que a humanidade viva um momento de maior fraternidade. Se essa consciência de compromisso com o que fazemos hoje em relação à preparação de um amanhã imprevisível não for compartilhada e responsável, o final do planeta não será azul, nem terá uma “arca” feita por algum Noé bíblico, inspirado a tal ponto que iniciou a construção de seu barco mesmo antes da chuva. (Gênesis, 6,14).


Hoje, em meu escritório, olhando o anel e o lenço que me fazem pertencer ao Grupo de Gilwell, observando fotos de muitos acampamentos e atividades escoteiras, vejo que essa grande fraternidade fundada há 100 anos, por uma pessoa inspirada, Lord Baden Powell, tem em seus princípios quase tudo o que a humanidade e suas escolas precisam para formar um cidadão comprometido com seus semelhantes e com a natureza, a ponto de desenvolver preservando, como a proposta da necessidade de sustentação do meio ambiente.

O movimento escoteiro, em muitos países, recebe ajuda oficial ou de empresas, algumas investindo vultosas quantias porque acreditam nos valores que o movimento divulga. Temos grupos pobres e que sobrevivem com dificuldade e, outros, que são patrocinados por escolas, igrejas, maçonaria e vários clubes de serviço. A região do Rio de Janeiro, desde a inauguração do estádio Mário Filho, o Maracanã, recebia uma quantia igual a 1% da receita das bilheterias. Pouco que se descontava, porém, significava muito para ajudar uma região. Neste ano está verba será cortada. Talvez o poder público acredite mais na força das balas de fuzil para disseminar segurança que nos movimentos que educam e evitam que um cidadão chegue até à marginalidade ou a cadeia.

Debates inócuos durante o século XX, típicos de uma sociedade seguidora de filigranas culturais com pinturas filosóficas, fizeram com que muitas pessoas bem intencionadas fossem quase forçadas a deixar o movimento por questões religiosas, filosóficas ou por preciosismos em relação a quem o fundou e deu o contorno específico. Em 17 de janeiro de 1921 e em 30 de março de 1922, respectivamente, os cardeais Louis Dubois, Arcebispo de Paris e o cardeal Gasparri dão as bênçãos ao movimento através de Monsier l ‘Abbé e Chanoine Cornette citando, em nome da Igreja Católica que “para mim é uma alegria e uma esperança ver nossa juventude agrupada sob os auspícios da autoridade eclesiástica para uma formação física e moral inspirada pelos mais puros princípios e regulamentos da doutrina católica”. (Sevres,1921).

A primeira ideia do fundador é posta em prática na ilha de Brownsea, ao sul da Inglaterra, no canal da Mancha, no Verão de 1907 (Powell, 1975). Tudo corria tão bem que, a partir de 1910, Baden Powell dedica toda a sua vida ao escotismo. Daí por diante, o escotismo avança até hoje. Mas, onde está a sua força? Onde estão os elementos marcantes que servem para atrair tantas crianças e jovens? Afirmo que a força está no método, na escala de valores e no aproveitamento das dominantes psicológicas de seus participantes, coisa que as escolas dizem fazer no papel dos planos e objetivos e pouco realizam na ação propedêutica da sala de aula.

Uma criança precisa brincar. A criança que não brinca não tem infância ou a tem em processo de desconstrução. Nas grandes cidades as crianças não brincam mais, compram brinquedos. No escotismo a criança aprende brincando. Feliz a pré-escola que sonha e que canta. Seria interessante perguntarmos aos educadores quando foi a última vez que, ingressando numa sala de aula, fizeram esta pergunta aos seus alunos: “qual foi seu último sonho?”.

A maioria das canções usadas na pré-escola são canções colhidas no escotismo. Enquanto cantam, fazem gestos, dançam, trocam de lugar, desenvolvem lateralidade, controle motor e atenção. Muitos educadores não sabem a origem dessas canções, porém usam uma excelente ferramenta de educação, algumas com 100 anos de idade.
Se aplicarmos os chamados jogos de KIM – distância, velocidade, memória, tato, olfato – percebemos que, brincando, uma criança se desenvolve e adquire competências necessárias para a sobrevivência em nossos dias.

Desde “lobinho” a criança aprende a diferença entre fogo e incêndio, coisa que qualquer quartel de corpo de bombeiros gostaria que a população soubesse. Desde os sete anos, quando um lobinho é iniciado ela aprende a estar com seus olhos e ouvidos abertos; ele aprende que a “matilha” precisa de meninos e meninas capazes de fazer o melhor possível. Desde cedo são debatidos e vividos os valores que a sociedade mais necessita: riqueza da convivência, desafios da vida ao ar livre, alegria que resulta dos serviços prestados ao próximo, mecanismos democráticos para tomar decisões, respeito aos símbolos, entendimento dos significados das comemorações, dos jogos, dos cantos, respeito à dignidade do outro, desenvolvimento de compromissos para com Deus, cuidado com a natureza. (UEB, 1998).

Um livro seria pouco para falar do escotismo e a experiência brota a cada linha escrita. Vou deter-me na promessa que é a mesma que se faz em qualquer parte do mundo neste movimento, assim como nosso cumprimento com a mão esquerda e os dedos entrelaçados é o mesmo no mundo inteiro, tanto para escotistas, como para escoteiros ou escoteiras.


Prometo pela minha honra, fazer o melhor possível para:
Cumprir meus deveres para com Deus e minha Pátria.
Ajudar o próximo em toda e qualquer ocasião.
Obedecer a Lei Escoteira.

Não se faz juramento e, além disso, promete-se fazer o melhor possível. De quem faz a promessa será exigido o melhor, nunca o medíocre. Dentro de uma escola a criança pode contentar-se, assim como sua família e professores, com os resultados médios que dão para passar. Triste avaliação é essa que desenvolve e premia a mediocridade, tirando dos educandos a possibilidade de ser mais ousado. No escotismo damos parabéns a quem obteve o grau cinco ou quatro, se este patamar corresponde ao melhor que ele poderia fazer. No entanto, se ele pode atingir o grau nove ou dez, não merece ser parabenizado porque se contentou com um sete. Neste caso específico, o sete é medíocre, não teria sido o melhor possível.


O escotismo propõe à consideração da criança alguns valores: cumprimento de deveres para com Deus, para com o próximo. Nada mais é que um exercício de cidadania. Mas, nesse ponto surge um problema: a questão dos ateus. Por princípio o escotismo deseja filiados que acreditem em Deus. Numa segunda instância aceita os que não acreditam e têm a possibilidade de acreditar. Hoje, o sistema não é tão rígido quanto esse aspecto, porém, os valores permanecem porque, mesmo sem religião, os seres humanos precisam ser éticos.
 


Algumas comparações interessantes poderão mostrar caminhos entre a vida de Cristo com seus apóstolos e os coordenadores escoteiros com seus liderados: Os apóstolos caminhavam com Cristo e presenciavam seus milagres. Estavam presentes ao sermão da montanha, (Mt.5), na chegada dos mensageiros de João Batista (Lc 8; Mt 13). Foram salvos de um naufrágio (Lc 8) e, três, entre eles - Pedro, o monitor; João, o submonitor e seu irmão, Tiago - foram especialmente convidados para contemplar a agonia do Horto das Oliveiras (Lc 9,28 ss; Mt 24,36ss).É próprio dos escoteiros passarem por várias classes. Para conseguir a primeira classe, eles fazem uma jornada, à comparação do envio dos apóstolos “dois a dois” ( Mc 6,7). Enfim, muitas comparações possíveis como se fizéssemos uma comparação entre a educação à distância e a que foi pregada na Galiléia há mais de 2000 anos. E até hoje, nas Igrejas, nos Templos e na vida diária quem professa alguma fé está em sintonia com este Provedor Celestial e faz seus “downloads” diariamente, quando não, várias vezes ao dia.

Mas, o que diria um empresário diante dos valores que espera dos seus funcionários? O que mais se houve é criatividade e empreendedorismo.


Se olharmos todos os ramos do escotismo, desde uma simples construção de campo, onde o escoteiro e a escoteira devem fazer pequenas construções, definir local de barracas, fazer as refeições, cuidar da higiene e deixar o local melhor do que encontraram, tudo isso só consegue ser feito com um trabalho em equipe, desenvolvimento de liderança, responsabilidade com seus pertences e pertences alheios, capacidade de criar soluções diante dos problemas e empreender. O movimento escoteiro é empreendedorismo desde o início. No escotismo não se pensa em fim porque, uma vez escoteiro, sempre escoteiro o que significa que o empreendedor continua, o cidadão avança e cria soluções. Este é um dos caminhos mais seguros para considerar a necessidade da alteridade e atingir-se a autonomia.


Há uma afirmação italiana antiga, posta a público no Brasil por um conhecido humorista que dizia: “o escotismo é composto por um bando de crianças vestidas como imbecis, dirigidas por um imbecil vestido de criança”. Depois dos anos oitenta a expressão perdeu a graça, porque a bermuda tornou-se moda. Essa ideia, certamente de um imbecil, deve ter sido excelente para desestimular crianças a buscar o movimento escoteiro e aliar-se às tropas de choque do crime, da droga, da violência e do descompromisso. Mas, infelizmente, essas induções indiretas não são chamadas de imbecis, a ponto das pessoas sérias terem medo e constrangimento de fazer de modo autônomo o que é certo e o que tem valor.


O livro Mains Habile, traduzido para o italiano pela Editrice Ancora de Milão, faz questão de apresentar a todos os integrantes do movimento à legislação florestal vigente no país. Isso faz parte da educação inicial de quem tem nas mãos um machado ou machadinha e deve ter responsabilidade no corte das plantas.


Nós, no Brasil, temos a péssima mania de transformar tudo em disciplina escolar. Sempre mais uma a ser ministrada teoricamente, sem vivência e que coloca a maioria dos alunos contra os valores ali expressos. Por isso pensamos em ética como disciplina isolada, assim como a filosofia e sociologia. A grande diferença da visão do escotismo está, exatamente, em conseguir durante 100 anos a abordagem de temas transversais. Todas as disciplinas escolares podem lá ser encontradas, desde o conhecimento teórico até as mais variadas práticas.


Muito interessante é o aparecimento de empresas que levam executivos para o campo com o intuito de desenvolver a criatividade e o empreendedorismo, o trabalho em equipe e a superação de dificuldades. Quando olhamos o que fazem, dá para perceber quanto o escotismo é aproveitado. Por fim, já que um livro seria pouco para tanto descrever e falar, nesta tarde em que dedico o tempo para o escotismo através deste artigo, tenho a certeza de que estou praticando uma B.A.


Alguns diriam que seria uma coisa ‘careta’, imaginar diariamente fazer uma ‘boa ação’. Porém, se as pessoas que praticam diariamente uma boa ação tiverem a alegria que eu sinto agora, ao terminar este artigo, podem estar certas de que têm o espírito escoteiro e que levam, como diz a canção: “de BP trago o espírito, sempre na mente, no coração, dentro de mim!”.

BIBLIOGRAFIA

Bíblia Sagrada – Sociedade Bíblica Internacional, 1990
Escalada – Assistência Religiosa Católica da UEB, 1969
Escotismo para Rapazes, Baden Powell, UEB edição de 1957
Le Scoutisme, Sévres, P.J., 1923, Orleans, France
Mains Habiles, Albert Boekholt. Ed. Du Centurion, Paris, 1967
Manual do Escotista – Ramo escoteiro – UEB, 2001
Manual do Escotista – Ramo Lobinho – UEB, 2003
Raiders Scouts, Michel Menu, Presses D ‘Ile de France

*Professor Hamilton Werneck é pedagogo, escritor e conferencista. Doutorando em educação e portador da Insígnia da Madeira dos Escoteiros.
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